27 junho 2009

Proibir a burca: defesa da liberdade das mulheres ou intolerância cultural?

Nicolas Sarkozy presidente da França propôs a proibição do uso da burca usada por mulheres muçulmanas, argumentando que a vestimenta reduz a mulher à servidão e ameaça a sua dignidade, que seu uso não é um sinal de religião, mas de subserviência.

Organizações de defesa dos direitos humanos como a Human Rights Watch, organização internacional respeitadíssima, têm criticado publicamente a proposta do governo francês, alertando que a liberdade de exprimir a religião e a liberdade de consciência são direitos fundamentais.

Tenho lido e ouvido muitos embates sobre o tema, que têm provocado discussões acaloradas e apaixonadas. Mas a verdade é que se aceitarmos o argumento de que nenhuma mulher opta por usar uma burca e sim coagida a usá-la desde cedo e acaba se conformando - o que por si só acho uma leitura simplista da realidade muçulmana - e que esta suposta violência tem que ser coibida pelo Estado laico, que ele não pode ser omisso em relação a ela, seria mais honesto a adoção de medidas restritivas contra nossas próprias mazelas ocidentais.

Isso porque, se o Estado for restringir ações que são hipoteticamente resultado de escolhas pessoais, ainda que influenciadas, teria que agir também para coibir severamente a prostituição porque as mulheres que "exercem"o chamado mais antigo dos ofícios o fazem não por prazer e sim como meio de sobrevivência. Valeria também para as mulheres que servem à indústria pornográfica e vários ramos do entretenimento que exploram a condição dela como objeto sexual.

Mas aí, reconheço, seria avançar demais sobre temas que sucitariam polêmica extrema no nosso proprio quintal social e cultural, não é mesmo? Mais cômodo é julgar eventuais diferenças culturais do Oriente, reduzindo-as a defeitos de uma cultura medieval incompatível com o padrão ocidental de civilização.

Resumindo, entendo que à pretexto de defender a liberdade das mulheres, franceses cultivam xenofobia e intolerância religiosa. Defendo a diversidade cultural! Mesmo que ela não atenda nossos padrões.

É minha opinião.

Cobertura jornalística de decisões judiciais é patética e tendenciosa

A cobertura da imprensa das decisões dos tribunais é patética. Às vezes, fica a impressão de que o jornalista não tem a menor idéia sobre o que está escrevendo ou falando. Aparentemente são demonstrações de preguiça dos veículos de comunicação e seus profissionais em apurar minimamente os fatos. Preguiça porque é muito difícil acreditar que seja apenas burrice. E isso ocorre em quase todas as reportagens que precisam de um pouquinho mais de esforço do jornalista, as matérias que envolvam direito e decisões de autoridades são as que sofrem mais.

Mas tenho convicção de que a negligência não é o ingrediente mais importante na (des)informação equivocada ou distorcida. É evidente que o componente mais decisivo é a disputa pela audi¼encia, a busca pela atenção do leitor e expectador. Há uma batalha ferrenha por notícias escandalosas e chocantes, em detrimento da cobertura isenta e equilibrada dos fatos. No caso abaixo, a notícia só ganhou repercussão porque as matérias tinham o claro ituíto de provocar a ira da sociedade.

Nesse ponto, chegamos a uma discussão ainda mais grave. O papel que a imprensa vem assumindo de patrulhamento das decisões judiciais. Quer dizer, os jornalistas aguardam as decisões judiciais com posições já pré-definidas. Não concedem ao julgador o reconhecimento de que ele é a pessoa mais habilitada a julgar. Se ele julgar em favor de "A" será louvado e aplaudido, se decidir em favor de "B" é hostilizado e tem sua decisão colocada sob suspeita. Atualmente, o manual de patrulhamento da mídia parece estabelecer que se o juiz ou o tribunal condenar, terá suas virtudes exaltadas, mas se inocentar, imputar-lhe-á defeitos, fragilidades e acusações de submissão a interesses escusos. Nesse caminho, parece que tornamos a justiça quase dispensável, pois, a mídia vende para a sociedade qual a decisão é a acertada e que, portanto, precisa ser assim adotada pelo judiciário. Se não o fizer, volta-se sobre ele uma saraivada de críticas e desabonações.

Em resumo, cada vez mais verifica-se uma flagrante tentativa de usurpação dos poderes do judiciario. Parece que se busca uma espécie de justiça popular, em que a sociedade faz a justiça que achar conveniente, pelas mãos de quem tem acesso aos meio de comunicação e prega a sua verdade absoluta. Vejam o exemplo abaixo analizado por Tulio Vianna. É apenas um caso entre tantos que encontramos em jornais e noticiários de radio e TV quase diariamente.

STJ não disse que “não é crime pagar por sexo com menores de idade”

Do Blog do Tulio Vianna

Quando a assessoria de imprensa do STJ noticiou que cliente ocasional de prostituta não viola artigo 244-A do Estatuto da Criança , eu cantei a bola no Twitter aqui e ali:

Este é um dos muitos exemplos de como jornalista escreve bobagem em matéria jurídica. O que o STJ deve ter decidido é que só pratica o 244-A o cafetão que submete as meninas à prostituição. O cliente pode ser enquadrado eventualmente em outros crimes.

Demorou um pouco, mas hoje O Globo me solta essa: STJ diz que não é crime pagar por sexo com menores de idade e revolta juízes e promotores . Zero Hora também afirma que: STJ diz não ser crime pagar por sexo com adolescentes .

A cobertura midiátidca das decisões dos tribunais é patética. Eles não têm a menor idéia sobre o que estão escrevendo.

Vejam como a notícia original foi deturpada. A manchete original estava correta: de fato, o STJ decidiu que o cliente ocasional da prostituta adolescente não viola o art.244-a do ECA. Só que o STJ NÃO disse que os clientes não poderiam ser condenados por OUTROS crimes. Quem inventou esta informação foram os jornalistas com diploma de O Globo e Zero Hora.

Leiam comigo o art.244-a do Estatuto da Criança e do Adolescente:

Art. 244-A. Submeter criança ou adolescente, como tais definidos no caput do art. 2o desta Lei, à prostituição ou à exploração sexual:

Pena – reclusão de quatro a dez anos, e multa.

Está claro pela simples leitura do artigo que quem pratica esse crime não é o cliente, mas o cafetão que explora as crianças e adolescentes.

O STJ absolveu corretamente por estes crimes, mas em momento algum afirmou que quem pratica relação sexual com crianças e adolescentes não pratica outro crime. Uma interpretação como esta só poderia partir de alguém que não tem a menor idéia sobre o que está escrevendo.

Quem pratica relação sexual com criança ou adolescente menor de 14 anos pode ser condenado por crime de estupro. Isso mesmo: estupro!

Vejam o que diz o art.224 do Código Penal:

Art. 224 – Presume-se a violência, se a vítima:

a) não é maior de catorze anos;

b) é alienada ou débil mental, e o agente conhecia esta circunstância;

c) não pode, por qualquer outra causa, oferecer resistência.

O Código Penal presume o dissenso em relações sexuais com menores de 14 anos e o STF tem entendido que esta presunção é absoluta. Conclusão: manter relação sexual com criança ou adolescente menor de 14 anos não é punível com o crime do art.244-a do ECA, mas com o art.213 c/c art.224 do Código Penal. Pena mínima mais grave, inclusive.

Quanto à relação sexual com adolescente maior de 14 anos, normalmente ela é lícita. Nem poderia ser de outra forma, nos tempos atuais, em que os adolescentes iniciam sua vida sexual cada vez mais cedo. Punir a relação sexual com adolescentes entre 14 e 18 anos seria uma ingerência absurda do Estado na liberdade sexual destes adolescentes que têm o direito a iniciar sua vida sexual quando julgarem mais adequado.

Evidentemente, porém, que, se as meninas estão sendo forçadas a se prostituírem e os clientes sabem disso, eles podem responder pelo crime de estupro, pois há emprego de coação para obrigá-las à prática das relações sexuais.

Aqui, porém, há um detalhe processual que não poderia ter sido superado pelo STJ: se alguém é denunciado em primeira instância pelo crime do art.244-a, não pode já na fase do recurso especial no STJ, ser condenado pelo crime do art.213, pois isto implicaria em uma condenação por crime distinto do qual foi denunciado, o que seria uma afronta ao direito constitucional à ampla defesa e ao contraditório.

É por isso que os réus da notícia foram absolvidos. Da próxima vez, o Ministério Público deve denunciar por estupro (art.213 c/c art.225 do CP) e demonstrar que o cliente sabia que as meninas só estavam praticando sexo com eles, pois estavam sendo coagidas por um cafetão. Não tenho dúvidas que, nesta hipótese, o STJ irá condenar os tais clientes por estupro.

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Atualização em 24/6/2009 às 14h36:

No caso em questão as notícias informam que as vítimas teriam 12 e 13 anos ou seja, está claro que houve crime de estupro. O estupro, em regra, é crime de ação penal privada (art.225 do CP) e a vítima precisa contratar um advogado para fazer a acusação. Neste caso, supondo que as vítimas sejam pobres, o crime passa a ser de ação penal pública condicionada à representação (art.225, §2º, do CP) e caberia ao Ministério Público fazer a acusação em juízo, desde que esta fosse requerida pelo representante legal da vítima (mãe, pai ou quem a represente).

20 junho 2009

[Esclarecedor texto do Selvino Heck acerca das supostas fraudes nas eleições no Irã.Contém revelador relato de empresário brasleiro que esteve no Irã às vésperas das eleições. É interessante ver a mesma notícia de ângulos distintos.]

Como se fabricam notícias e opiniões
Selvino Heck *
do Blog adital

Aproveitei o semi-feriadão de Corpus Christi para ouvir os noticiários televisivos. Principal assunto: as eleições no Irã (antiga Pérsia), com vitória expressiva de Mohammad Ahmadinejad, as supostas fraudes ocorridas e as manifestações da oposição inconformada com os resultados.

Comento que é preciso ver com extremo cuidado as notícias e reportagens, todas iguais em todos os canais. Já me chamara a atenção o noticiário pré-eleitoral, quando o candidato da oposição, e sua mulher eram sempre exaltados e o atual presidente demonizado. Tudo tinha um cheiro de já visto ou semelhante a tantos outros acontecimentos internacionais, em que só uma voz era ouvida e uma versão difundida.

Volto a Brasília, acesso a Internet e leio no blog de Luis Nassif o relato de Marcus Netto: "Empresário, cheguei ontem do Irã. Dez dias em Teerã, Qom, Yazdi, Shiraz e Ishafan. Fui hóspede na casa de fornecedores da típica classe média e alta iraniana. Assisti aos debates de TV com eles. Em função da minha profissão, visitei indústrias onde perguntei livremente operários, taxistas, pequenos comerciantes e populares em cafés. Todos, quase sem exceção, declaram voto em Ahmadinejad. Os empresários é que financiaram a oposição. É preciso reconhecer os fatos sem paixões.

Presenciei pessoalmente a total liberdade da população em se manifestar. Diariamente, após as orações da noite, por volta das 22h, massas de jovens, estudantes faziam manifestações barulhentas nas cidades que visitei. Sem nenhuma repressão. Chamou-me a atenção a caríssima campanha do líder da oposição, M. Mousavi. Folhetos coloridos em tamanho A4 e A3 eram distribuídos aos motoristas aos milhares.

As eleições atuais se parecem muito com a disputa entre Lula e Alckmin. No caso iraniano, a oposição cometeu o erro de achar que a opinião pública é composta apenas pelos bem nascidos e a classe média. Pior que isso, eles insultaram o Islã utilizando cores e símbolos que são inapropriados dentro do Islã.
Gostando ou não da cultura islâmica, todos com que conversei no Irã, ricos e pobres, declaravam-se muito satisfeitos com a religião. O Irã é muito mais liberal quanto às mulheres do que a ditadura da Arábia Saudita e dos Emirados e muito menos corrupto que a ditadura Mubarak no Egito. Até mesmo os detratores de Ahmadinejad afirmaram que ele era um homem honesto.

Os Estados Unidos participaram ativamente no suporte à oposição, através de recursos financeiros e de sua comunidade exilada em Washington, provenientes da era do Xá Pahlevi. A CIA já fez isso no passado com Mossadegh e tentou novamente. Porém, no mundo atual, parece que os pobres através de seu silêncio, mas argúcia, estão sabendo dar as respostas necessárias às elites carcomidas do mundo velho."

Segundo o presidente Lula, "não é o primeiro país que tem uma eleição na qual alguém ganha e quem perde faz protesto. A impressão que eu tenho é a de que o protesto é de quem perdeu. No Brasil, nós já estamos assim de experiência."

Tem sido assim ao longo do tempo, desde o anti-comunismo feroz, passando por Cuba, Nicarágua, até hoje com Venezuela, Bolívia. Fabricam-se notícias e opiniões ao gosto do freguês ou da ideologia de quem as produz, edita e divulga.

Quando vejo os noticiários, ligo o desconfiômetro. Busco várias opiniões. Dá trabalho, mas é necessário. Felizmente, as inovações tecnológicas estão democratizando a comunicação e a informação. Cada um pode ter computador em casa, ter um endereço eletrônico, acessar sites e blogs, comunicar-se com o mundo. Assim, é possível fugir dos das manipulações, formar pensamento e opiniões próprias. Viva a democracia!

* Assessor Especial do Presidente do Brasil

A deformação da cobertura jornalística da crise no Irã

A verdade é que é muito difícil julgar o que ocorre no Irã. A violência policial é condenável, mas a polêmica em torno das eleições é duvidosa. Ambos os líderes das correntes políticas que se opõem, Ahmadinejad e Moussavi, são radicais com longo histórico de violência. Nenhum dos dois prega mudanças ou é moderado.

Impressionante como a imprensa cria estereótipos estapafúrdios e completamente descolados da realidade. Exemplo? Às vésperas das eleições no Irã, a mídia ocidental criou a fantasia de que Ahmadinejad poderia ser derrotado por um "moderado". Moderado? Mousavi? Para quem desconhece a história política do Irã, o candidato oficialmente derrotado Mir-Hossein Mousavi, é um antigo primeiro-ministro do aiatolá Kohmeini, responsável pela execução de milhares de opositores políticos na década de 80.

Com incrível cara de pau ou ignorância, muitos jornalistas chegaram a dizer que Mousavi iria inaugurar um novo período de relações amigáveis com o Ocidente e até com Israel. Para quem não lembra, em 2001, Mousavi esteve envolvido no atentado terrorista ao centro cultural judaico de Buenos Aires. Morreram 85 pessoas.

Enfim, denunciar a violência contra o povo do Irã é papel da imprensa ocidental, mas construir deliberamente uma falsa imagem de defensora das liberdades de uma das partes envolvidas no conflito é no mínimo rasgar os mais básicos princípios do jornalismo.

Histeria de jornalista

É histeria a revolta contra o fim da exigência do diploma de jornalismo, decidida pelo Supremo Tribunal Federal. Para se ter uma opinião bem lúcida sobre as consequências do fim da obrigatoriedade é preciso primeiro esclarecer para que serve o curso.

Nessa discussão é chocante constatar qur a maioria vê no curso o acesso ao diploma simplesmente, a etapa necessária para exercer a profissão.O curso de jornalismo é para dar conhecimento, instrução, teoria, técnica. É importatíssimo, indispensável, creio, para boa formação.Partido desse pressuposto, não vejo que tipo de ameaça sofre o jornalista graduado, se ele tem uma formação que o outro não tem..

Pergunto: ate agora, o que fazia o jornalista graduado melhor do que quem não tinha o diploma? O conhecimento adquirido ou o certificado de conclusão? O fim da obrigatoriedade do diploma não desvaloriza a profissão. Os anos de faculdade são para adquirir conhecimento, não um canudo. A obrigatoriedade do diploma criou essa distorção, de supervalorizar o quadro na parede em detrimento da formação e bagagem que ele representa.

Só há uma chance de quem tiver diploma perder o emprego: se ele for pior jornalista q aquele q não tiver. E aí, será justo! O presiddente da fenaj, chegou a dizer que agora qualquer analfabeto vai concorrer com jornalista. Rídiculo! É conversa fiada dizer que os jornais vão demitir jornalistas de redação para contratar quem não tem diploma.

E por 2 motivos:

Primeiro porque os donos da mídia não vão trocar um bom jornalista por alguém quem não sabe escrever. Os jornais querem respeito, credibilidade, leitores, assinantes, anunciantes, etc... Portanto, fiquem tranquilos, pois, a Globo não vai demitir o Caco Barcellos, como a Fenaj finge acreditar.

Segundo: não existe a possibilidade de contratar mão de obra mais barata porque jornalista de redação já ganha muito pouco mesmo. Além do mais, bastará os sindicatos fiscalizarem para inibir pagamentos inferiores ao piso da categoria.

Um exemplo disso é o fato de que não é exigido diploma para publicidade. mesmo assim, inexiste agencias sem diplomados. E olha que é uma profissão que paga muito melhor do que muitas outras áreas, inclusive o jornalismo.

15 junho 2009

"Obama não está para piscadelas", Uri Avnery

Tradução: coletivo Todas as Vozes

LEMBRAM-SE DE DOV WEISGLASS? Aquele, que disse que a paz teria de esperar até que os palestinos virassem finlandeses? Que falava de conservar em formol o processo de paz?
Weisglass será para sempre lembrado, menos pelo que disse do que por suas piscadelas, aquela coisa de falar e piscar um olho. Weisglass é o Rei da Piscadela.
Essa semana, Binyamin Netanyahu convocou-o para reunião urgente; precisava de curso intensivo de “piscar olho”, expressão de gíria, do hebraico contemporâneo, para “enganação”).
Enganação é o principal instrumento de trabalho dos empreiteiros israelenses que constroem colônias. A enganação-piscadela é a verdadeira mãe de todas as colônias. Os colonos enganam-piscam. O governo de Israel engana-pisca. Dizem não, e enganam-piscam. Enganam-piscam e constroem. Enganam-piscam e instalam água e luz. Enganam-piscam e mandam soldados para os postos avançados e arrancam palestinos de suas terras e arrancam oliveiras pelas raízes.
A piscadela de enganação também é o principal instrumento de trabalho da diplomacia israelense. Tudo se faz por piscadelas. Os EUA exigem o fim da construção de colônias e piscam. Israel concorda – e também pisca.
O problema é que não há registro impresso de piscadelas. Não há tecla de computador para marcar “piscadela de enganação”. Então… Hillary Clinton pode, honesta e sinceramente, garantir que não há piscadelas de enganação em acordos assinados por EUA e Israel. Nem em qualquer memorando-registro das conversações. Não há registro de piscadelas de enganação em nenhum arquivo ou documento.
Pior: parece que a cultura afro-norte-americana não conhece a piscadela de enganação. Quando Netanyahu sentou-se na Casa Branca e pôs-se a piscar – Barack Obama não respondeu. Bibi piscava e piscava e piscava… e Obama não entendia. Piscou e piscou e piscou até ter cãibras no olho, e nada! Obama provavelmente pensou que Bibi tivesse um cacoete. Como pisca! Realmente embaraçoso.
O que fazer ante alguém que não é de piscadelas? Como, ó Deus, conseguir resposta de piscadela?
ESSE É o principal problema que o primeiro-ministro de Israel enfrenta hoje.
Amanhã, o primeiro-ministro discursará um “Grande Discurso”. Não apenas grande, também muito “histórico”. Será a apoteótica resposta ao discurso de Obama no Egito. Tudo está sendo encenado para que os dois discursos se pareçam. Obama falou na Universidade do Cairo? Netanyahu falará na Universidade Bar-Ilan, instituição religiosa da direita israelense, onde foi cevado o assassino de Yitzhak Rabin.
Mas as semelhanças ficam por aí. Haverá diferenças. Obama delineou os contornos de um Novo Oriente Médio? Netanyahu delineará os contornos do Velho, bem velho, Oriente Médio. Obama falou de um futuro de paz, cooperação e respeito mútuo? Netanyahu falará do passado de Holocausto, violência, ódio e medos.
O maior problema de Netanyahu é convencer o mundo de que o velho é novo. Converter os velhos e surrados clichês em novidade; convertê-los em palavra de ordem para amanhã. Mas… como fazê-lo sem usar piscadelas de enganação, ante alguém que não reage a piscadelas? Como falar sobre “crescimento natural” das colônias, sem piscar? Como falar de Estado palestino, sem piscar? Como falar sobre apressar as negociações de paz com palestinos, sem piscadela de enganação?
Os mais famosos alfaiates foram convocados para ajudar a costurar as roupas novas do rei, dos ministros, dos deputados ao Parlamento israelense, de todos os professores-mágicos e, claro, também de Shimon Peres.
Todos acorreram, ao primeiro chamado: costurar roupa nova, calças de moda e gravata colorida – dessas que só os espertalhões veem.
Israel sempre apostou no Holocausto, como uma espécie de salvo-conduto para cometer qualquer crime. Era dizer “Holocausto” e a sala ficava em silêncio. Israel pôde oprimir os palestinos, roubar a terra deles, meter colônias na terra dos palestinos, espalhar postos de controle armado por toda parte, como caca de mosca. Israel bloqueou Gaza, fez o que quis. E quando os não-judeus protestavam, bastava gritar “Holocausto” – e os protestos calavam, congelados nos lábios dos não-judeus.
Agora… O que fará Israel, contra Obama, que denuncia o horror do Holocausto, que visita um campo de concentração e leva ao lado Elie Wiesel, “Mr. Holocaust”, em pessoa… E que, mesmo assim, exige que pare a construção de colônias?
Não surpreende que Netanyahu esteja sofrendo o suplício da insônia, sem descanso para a alma. Netanyahu sem o Holocausto é como o Papa sem a cruz. Sem um “segundo Holocausto”… o que Netanyahu terá a dizer contra o Iran? O que dirá sobre o “Perigo Existencial” que impede Israel de evacuar tendas e barracões na Judeia e derrubar muros na Samaria?
Sem isso… o que restará para que Netanyahu recheie seu “Discurso Histórico”?
Terá de martelar prego quadrado em buraco redondo. Cada vez que diga “sim”, leia-se “não”. É o que sempre fizeram seus antecessores. Ehud Barak fez. Ariel Sharon fez. Ehud Olmert fez. Com uma diferença: diziam, faziam… e piscavam a piscadela de enganação; mas Netanyahu terá de falar sem piscar.
Terá de falar da solução dos Dois Estados… sem mencionar dois Estados. Terá de falar sobre parar de construir nas colônias… sem parar de construir nas colônias e com o trabalho (de construção nas colônias) continuando, sem parar, a pleno vapor.
No passado, sempre houve muitos truques para continuar a construção de colônias. “O cérebro judeu produz patentes” – diz uma canção popular muito conhecida. Novas colônias foram sempre construídas, sob a mentira de que seriam extensões da colônias existentes – mesmo que a ‘extensão’ esteja a dez, cem, duzentos, mil, dois mil metros de distância… desde que, da colônia, aviste-se a ‘extensão’. Ou mentiu-se que a construção prosseguia, não em novas terras, mas nos limites das colônias já existentes… O que sempre foi quase-verdade, porque a colônia de Maaleh Adumin, por exemplo, é enorme, com área equivalente à de Telavive.
Talvez Netanyahu lembre a famosa carta de George W. Bush, em que manifesta opinião de que, em qualquer futuro acordo de paz, “centros populacionais já existentes” deve(ria)m ser anexados a Israel. Mas nem Bush definiu o que fossem “centros populacionais” ou demarcou fronteiras. Nem Bush jamais disse que Israel estaria autorizado a construir em terra dos palestinos antes de haver qualquer acordo. Antes de tudo, porque jamais teve autoridade para decidir essas questões.
Israel fala também do “crescimento natural”. OK. Mulheres podem ser usadas como máquinas de fabricar crianças, de preferência gêmeos e trigêmeos. E qualquer um pode adotar filhos, de 1 a 101 anos. Claro, sempre que nasce um filho, é preciso construir outro quarto, outra casa, outra colônia.
(E quem fale em “crescimento natural” para os judeus, fala também de “crescimento não-natural” para os árabes. Os árabes não crescem naturalmente. São como uma doença: crescem não-naturalmente. Netanyahu talvez use também esse argumento.)
E quanto ao Estado da Palestina, que Obama está projetando?
A televisão israelense fez feio trabalho, essa semana: lembrou aos israelenses que Netanyahu disse há apenas seis anos: “Estado palestino – NÃO!”, porque “dizer sim a um Estado palestino significa dizer não ao Estado judeu”.
Netanyahu parece crer que se trata apenas de como encenar as coisas. Talvez diga que, no passado, Israel já aceitou o Mapa do Caminho, que contém vestígios de um Estado palestino. É verdade que Israel ‘aceitou’… mas com 14 emendas que, de fato, castraram o Mapa do Caminho e o converteram em papel sem qualquer significado. Netanyahu conta com que Obama dê-se por satisfeito.
Em resumo: ninguém precisa voltar a falar de Dois Estados, porque o assunto já foi mencionado no Mapa do Caminho (amaldiçoado seja! – como Netanyahu, se não diz, pensa), que Israel declarou morto há muito tempo, mas que agora finge que volta a considerar, e no qual há rápida menção a algo semelhante a Dois Estados. Então não se fala mais nisso; basta uma rápida referência de modo oblíquo (e piscadela).
Mas o que fazer se, apesar de tudo, Obama insiste para que Netanyahu pronuncie as palavras “Estado palestino”, dos próprios lábios? Se não houver truque possível, para dizer sem dizer, Netanyahu talvez pronuncie as palavras… e mentalmente as exorcizará, como maldição; e acrescentará qualquer meia dúzia de adjetivos que detonarão o real significado das palavras. Exatamente como, antes dele, já fizeram Barak, Sharon e Olmert.
As declarações de Tzipi Livni e sua turma deram a impressão de que continuam todos empacados. Também ela parece crer que Israel poderá continuar a falar sobre Dois Estados, enquanto opera na direção oposta; falar de parar a construção de novas colônias, e continuar a construí-las. Dessa toca não virá qualquer mensagem nova.
A questão é que Obama não está interessado em dar nova formulação a velhos slogans. Parece estar exigindo que Israel aceite o princípio dos Dois Estados como base para ação concreta e rigorosa: chegar a um acordo para o estabelecimento de um Estado chamado Palestina, com capital em Jerusalém Leste; e fim das colônias e de toda a parafernália da ocupação.
Obama está exigindo negociações consistentes, de modo que em dois ou três anos – antes do fim de seu governo – haja verdadeira paz na Região, uma paz que realmente assegure a existência e a segurança do “Estado judeu de Israel” (expressão que George Mitchell inaugurou essa semana) e do Estado árabe da Palestina, lado a lado.
Tudo isso é parte de uma nova ordem de um novo Grande Oriente Médio, do Paquistão ao Marrocos, como parte de uma visão de mundo mais ampla.
Contra essa visão, de nada servem as piscadelas de enganação à moda Weisglass ou a ginástica verbal à moda Peres.
No discurso de amanhã, Netanyahu terá de escolher um dentre três caminhos: ou adota a via de uma colisão frontal com os EUA; ou promove mudança total na política do seu governo em Israel; ou renuncia.
Acabou a era das piscadelas de enganação.



Uri Avnery, em hebraico: אורי אבנרי, também translit. Uri Avneri (Beckum, Alemanha, 10 de setembro de 1923), nascido Helmut Ostermann, é um jornalista israelense de esquerda [1] pacifista e antigo membro da Knesset, que, durante a juventude foi membro do movimento de direita denominado Sionismo revisionista.

"Reflexões e Impressões Sobre Conflito Entre Árabes e Judeus no Oriente Médio", por Bernardo Kucinski

Agência Carta Maior - 15/01/2009


Sempre me impressionaram relatos como o do fanático judeu que entrou numa mesquita e metralhou mais de uma dezena de fiéis em plena oração. Ou o esfaqueamento de judeus num ponto de ônibus por um árabe enraivecido. São claros sinais de um ódio já instalado dentro do coração de cada um. O fanatismo religioso é a principal usina do ódio entre as comunidades.Bernardo Kucinski.

Sob todos os ângulos, o moral, o político e o histórico, o conflito palestino é complexo. Para mim, que vivi em Israel e lá tenho amigos e família, é também repleto de cargas emocionais e simbólicas. Relutei em escrever este artigo. Ocorre que mesmo antes do ataque já estava querendo escrever sobre o conflito. Com esse objetivo fui em novembro aos territórios palestinos da Cisjordânia, sob ocupação parcial de Israel, para ver com meus olhos e descrever a saga dos palestinos que precisam passar por postos militares de controle todos os dias ao transitar entre suas próprias vilas, campos e cidades.

O ataque a Gaza atropelou meus planos. As fotos de crianças mortas nos ataques a Gaza e algumas abordagens simplistas de colunistas de Carta Maior, em especial a de Boaventura Santos, sugerindo que o Estado de Israel resultou tão somente de uma trama colonialista que usurpou terras dos árabes, também me convenceram de que era preciso escrever. Abrir novas janelas de percepção. Problematizar, mesmo sem deixar de tomar, como sempre, o partido dos mais fracos.

A solução que encontrei foi adotar o ângulo mais geral da violência em si, em especial buscar os origens do ódio pessoal crescente entre indivíduos árabes e indivíduos judeus, além do ódio coletivo também em alta entre as duas comunidades. Sempre me impressionaram relatos como o do fanático judeu que entrou numa mesquita e metralhou mais de uma dezena de fiéis em plena oração. Ou o esfaqueamento de judeus num ponto de ônibus por um árabe enraivecido. São claros sinais de um ódio já instalado dentro do coração de cada um.

Mesmo antes do ataque a Gaza houve uma nova escalada nessa espiral de ódio. Em Jerusalém, há poucos meses, um operário árabe de uma construção subiu num trator e num gesto de fúria jogou a máquina contra carros de passeio, matando e ferindo. Dias depois, outro operário árabe fez o mesmo. No Cisjordânia, judeus de assentamentos atacaram agricultores árabes e cortaram suas oliveiras. Em Naharia, cidade aprazível à beira-mar, onde caíram foguetes disparados do Líbano após o ataque a Gaza, houve há três meses confrontos abertos de rua entre moradores árabes e judeus.

"A próxima etapa será uma terceira intifada (1), desta vez dos moradores árabes de Israel", prognosticava em tom fatalista, poucas semanas antes do ataque a Gaza, meu amigo Levy, um carioca que hoje mora num subúrbio de Tel Aviv.

O ataque a Gaza com a morte de tantas crianças, idosos e mulheres não combatentes – quase 40% do total de mortes - não só vai realimentar essa espiral de ódio recíproco, como pode ter tido o ódio como um dos seus motivos. É a tese de Gideon Levy, importante jornalista israelense, que critica sistematicamente as autoridades no jornal Haaretz. Indignado com o apoio da maioria da população israelense ao ataque, mesmo depois de testemunhar os seus horrores, ele diz que "racismo e ódio habitam os porões de suas mentes, assim como o impulso por vingança e a sede de sangue."

Quando e como nasceu esse ódio recíproco? A pergunta é relevante porque foi entre os povos árabes que os judeus gozaram de liberdade religiosa e acesso irrestrito ao saber, às artes e à medicina. O período de ouro da diáspora judaica se dá nos domínios do império árabe e sua desgraça começa exatamente com a queda de Granada para os cristãos em 1492 e a expulsão dos judeus de Espanha e Portugal. Surge a Inquisição que queimava judeus na fogueira, depois os pogroms que os abatia em suas aldeias e finalmente o Holocausto.

Nada comparável a essas tragédias, mesmo remotamente, aconteceu nos países árabes. Onde, como e quando nasceu esse ódio na Palestina? É a pergunta que persegue o grande escritor israelense e defensor da paz Amos Oz em seu principal livro, o autobiográfico "Do amor e trevas" (2). Ele era um menino em Jerusalém quando se deu uma brutal escalada no conflito e é com os olhos de uma criança que ele vai rememorando fatos e cenários. Lembra seu pai dizendo que cinquenta anos antes, no começo do século XX, coexistiam em harmonia em Jerusalém quatro grandes etnias, judeus, árabes cristãos, árabes muçulmanos e armênios. Além de se misturarem nas ruas, tinham seus bairros próprios, os "quarteirões." Jerusalém já era a maior cidade da Palestina, então uma província do Império Otomano, com 60 mil habitantes. Talvez Boaventura Santos não saiba que já nesses tempos a maior etnia eram os judeus, cerca de 35 mil.

Em 1922 e 23, depois da derrota da Turquia na grande guerra e em meio ao processo de outorga da controle da região à Grã Bretanha, eclodiram os primeiros levantes principalmente em Jaffa e Jerusalém. Incomodava os árabes a crescente presença de judeus disputando empregos e comprando suas terras, afrontando seus costumes. Mas o que realmente os movia já nesses anos 20 era um novo movimento nacionalista árabe que nasceu em Damasco. As manifestações, em geral de pequeno porte, degeneram em arruaças e algumas mortes. Não falavam em jogar os judeus no mar.

Alguns anos depois, em 1928, foi fundado no Cairo a Irmandade Muçulmana, sociedade secreta que pregava um modelo de Estado fundamentalista muçulmano, unindo Estado e religião, política e moral, mais ou menos como o instalado por Ghadafi na Líbia, meio século depois. Já os potentados árabes da região, sheiks, chefes de clãs e o rei do Iraque, cobravam dos ingleses a independência e a instauração de um califato árabe no Oriente Médio, como lhes havia sido prometido se eles se levantassem contra os turcos (3).

Nos anos 30, os conflitos recrudesceram na Palestina, já então dirigidos pelo maior autoridade religiosa árabe local, o mufti de Jerusalém, Haj Amin al Husaini, - que aderiu à causa nazista (4). Nascia a vertente xenófoba do nacionalismo árabe. O ódio ao diferente. Hoje a xenofobia árabe está no fanatismo religioso do Hamas e do Hezbola. Entre os judeus demorou mais, porque no início os religiosos eram contra ter um Estado Judeu. Alguns ainda são até hoje. Mas são judeus fundamentalistas do Brooklin que povoam, com ajuda financeira dos governos de Israel e dos Estados Unidos, os assentamentos na Cisjordânia. Agridem árabes, formam milícias, criam caso em torno de cada pedra do Hebron, que proclamam sagrada, porque ali sentou algum profeta numa de suas andanças; cortam oliveiras e pregam a expansão das terras de Israel até onde der. O fanatismo religioso é sem dúvida, a principal usina do ódio entre as comunidades.

Já os judeus de sua infância em Jerusalém, lembra Amos Oz, pareciam personagens de um romance de Tolstoi: intelectuais extravagantes, sonhadores barbudos, utópicos, poetas pacifistas e vegetarianos. Alguns pareciam o próprio Tolstoi. A maioria viera da Rússia, como seu tio Joseph Klausner, que estudou em Heidelberg porque judeus não podiam entrar nas universidades russas e falava sete línguas. Klausner dedicou quase toda sua vida à elaboração da sua tese assombrosa tanto para judeus quanto para cristãos de que Jesus de Nazaré foi um moralista judaico por excelência, nunca deixou de ser judeu e nem fundou religião alguma.

Em 1929 houve novos distúrbios de rua. O bairro Talpiot em que moravam Klausner e o escritor Agnon, lembra Amos Oz, foi atacado por árabes e a biblioteca dos dois parcialmente queimada. Um comissão de inquérito do governo britânico recomendou então que fosse colocado um limite à imigração de judeus. Nessa altura os ingleses já haviam se afastado da declaração Balfour de 1917, que expressava a simpatia do governo britânico pelo estabelecimento de um "lar nacional dos judeus". Havia então um milhão de árabes na Palestina e quase 400 mil judeus. Em 1937 uma nova missão britânica (5) colocou-se contra a criação de um Estado de caráter judeu, endossando a posição das lideranças árabes. Os governos árabes não admitiam que uma parte do território fosse alocada a um estado de caráter judeu.

Amos Oz nasceu em 39, ano em que os nazistas atacaram a Polônia dando início à Segunda Guerra Mundial e ao assassinato em massa de judeus. Aviões italianos jogaram bombas em Haifa e Jerusalém. Os tanques de Rommel chegaram quase às portas do Cairo. Antes do final da guerra a mãe de Amos já sabia que toda sua família, suas amigas e seus professores haviam sido mortos por alemães e poloneses nas florestas de Rovno. A maioria dos 60 mil habitantes de Rovno eram judeus e ali, já em 1919, tinham sido criadas escolas voltadas ao ensino em hebraico.

Em 1947, quando a ONU mandou uma comissão para estudar uma eventual partilha da Palestina em dois Estados um árabe e um judeu, Jerusalém já tinha cem mil habitantes judeus, e mais 65 mil árabes e outras etnias. Em todo o país a população judaica crescera muito, apesar dos ingleses terem imposto desde 1939, uma quota que limitava a entrada de judeus a apenas 15 mil por ano (6). A maioria era de fugitivos do nazismo. Surgiu a imigração ilegal e os campos de concentração em Chipre onde os infelizes que caíam nas mãos dos soldados ingleses eram internados.

Aconteceu então o ataque da organização terrorista judaica de extrema direita Irgun à aldeia árabe, Deir Yassin, nas proximidades de Jerusalém, no dia 4 de abril. Era dia de feira. Mais de 110 árabes foram mortos. Uma chacina sem explicação e sem precedentes. O Irgun se especializara em atacar os ingleses , principal objeto do ódio judeu na época. Era chefiado por Menachen Begin, rotulado de terrorista pelos ingleses e de fascista pelos sionistas de esquerda. O extremismo judaico de direita, laico, foi também um dos fomentadores do ódio.

Begin era um dos ídolos do pai de Amos Oz. É o mesmo Begin que 40 anos depois, como primeiro ministro, assinou o tratado de paz com o Egito (7).

Quatro dias depois da chacina de Deir Yassin, veio a retaliação: um comboio que levava professores para a Universidade de Jerusalém, situada no Monte Scopus e isolada do bairro judeu, foi emboscado por árabes e todos os seus 77 passageiros mortos, sob o olhar indiferente e cúmplice da polícia britânica. Entre os mortos, o diretor do hospital Hadassa e chefes de departamento da universidade .

Nessa emboscada aparece claramente o outro gene do ódio entre comunidades, a tática britânica de "dividir para governar." Em quase todas colônias do Império Britânico, ficou a herança do ódio entre comunidade, na Índia, na Guyana inglesa, na Palestina. O pai de Amoz Oz, era bibliotecário da universidade e só não foi morto porque naquele dia teve uma febre e não se juntou ao comboio. No dia seguinte, um novo massacre de 50 prisioneiros judeus que já tinham se rendido depois de derrotados numa batalha pela abertura do cerco de Jerusalém, em Gush Etzion. Esses três massacres num espaço de apenas cinco dias, explicáveis apenas pelo ódio, estabeleceram o padrão das relações entre as duas comunidades pelos tempos a fora.

No ano seguinte, a assembléia da ONU aprovou por 33 votos contra 13 a proposta da comissão de dividir a Palestina em dois estados. Por que não um estado bi-nacional ou multiétnico, como é o Canadá e mesmo o Líbano, logo ali na fronteira Norte? Porque nem as correntes majoritárias do sionismo e nem as lideranças árabes aceitavam essa solução. Entre as dez abstenções estava a Grã Bretanha. União Soviética e Estados Unidos votaram a favor. Brasil também.

Surgiu, então, o mais importante fator da violência na região do ponto de vista objetivo: o choque entre dois projetos para um mesmo e pequeno espaço geográfico. Os judeus logo proclamaram o estado de Israel. Embora céticos quanto à votação da ONU, haviam se preparado para isso há muito tempo. Os governantes árabes da região não aceitaram a partilha e declararam guerra. Exércitos árabes dos quatro paises vizinhos e mais o Iraque invadiram a Palestina. O resultado sabemos: os judeus perderam parte de Jerusalém (que reconquistariam depois na guerra de 67), e os árabes perderam na maioria dos outras frentes, incluindo grandes cidades de população mista: Jaffo, Tiberíades, Sfad.

Israel passou a controlar um território muito maior do que o originalmente definido pela ONU e não permitiu o retorno dos quase 700 mil palestinos que tinham fugido de suas casas no calor da luta. Expulsos pelos judeus, diz a historiografia oficial palestina, conclamados a fugir pelas próprios governantes árabes que lhes prometia o retorno triunfal, diz a historiografia oficial judaica. As duas situações aconteceram. Por isso um numero proporcionalmente tão grande de refugiados.

Surgiram os primeiros campos de refugiados palestinos na Jordânia, Líbano e faixa de Gaza. As terras originalmente alocadas a um futuro estado palestino, pelo plano de partilha da ONU, ficaram separadas em duas partes, isoladas uma da outra, a Cisjordânia e a faixa de Gaza.

Em 1951, um árabe assassinou o mais moderado dos governantes árabes da época, o rei Abdullah da Jordânia, para impedir que ele assinasse um acordo definitivo de paz com Israel, com o qual estava negociando. Quase meio século depois, em 1995, um judeu assassinou o primeiro ministro Itzchak Rabin para impedir que ele assinasse um acordo definitivo de paz com a OLP, com qual estava negociando. Esses dois crimes de uma simetria absoluta, mostram como o ódio contra o outro se introjeta em cada comunidade, criando a intolerância política e ódio contra o seu igual.

Nesses 45 anos houve três guerras relativamente convencionais entre Israel e os países árabes, em 1956, em 1967 e em 1973 nas quais as leis de guerra foram em geral respeitadas, mas a de 1967 provocou a fuga de mais palestinos que também não puderam mais voltar. Hoje, os refugiados palestinos e seus filhos e netos já são 4,1 milhões, pela contagem da ONU, em cerca de 60 campos nos países vizinhos que, exceto a Jordânia, se recusam a lhes dar cidadania plena. É um escândalo, uma anomalia, algo incompreensível e desumano, que mais de meio século depois ainda existam esses campos de refugiados, vivendo de ajuda "humanitária".

A recusa do Estado de Israel em recebê-los de volta, embora admitindo dar compensações e permitir a reunião de famílias, tem sido, ao lado do estatuto de Jerusalém, um dos grandes problemas em todas as tentativas de negociar a paz. Esses campos obviamente são terreno fértil para o ódio. Dele saem os comandos suicidas.

Entre os judeus foi se aprofundando a síndrome de Metzada, como é chamada a sensação de que estão cercados e serão um dia destruídos. E a convicção de que na hora agá ninguém os ajudará senão eles mesmos – o mote dos "biluim", os primeiros imigrantes da era moderna, que saíram da região de Karkov para a Palestina depois dos pogroms de 1881. Daí nasceu a tática dos ataques preventivos e a desproporcionalidade e brutalidade dos revides, adotadas nas guerras do Líbano e agora no ataque a Gaza, áreas de povoamento denso, nas quais seriam inevitáveis as mortes de dezenas de civis. "Nossos corações se endureceram e nossos olhos se turvaram", diz Gideon Levy, frase que hoje corre o mundo.

Entre os árabes foi se dando um racha, de início leve, hoje profundo, entre os que acabaram por admitir a existência do estado judeu, assinando tratados de paz (Egito e Jordânia), ou negociando a assinatura (OLP e Síria) e os que mantém a tese – defendida em Carta Maior por Boaventura Santos de que o estado judeu é uma usurpação de seus direitos, e propugnam a sua extinção: Hezbolla, no Líbano e Hamas, na faixa de Gaza sendo os grupos principais, com o governo do Irã apoiando.

Em 2000, Arafat rejeitou no último minuto uma ampla proposta de paz de Ehud Barack que talvez pudesse ter desmontado a espiral do ódio. Ehud Barack, esse mesmo que hoje comanda o pesado ataque a Gaza foi ao extremo de oferecer a devolução praticamente completa das terras ocupadas em 67, e dividir a autoridade sobre Jerusalém entre as duas comunidades. Aquele foi um momento raro, como esse instante fugaz em que as mãos de dois trapezistas se encontram no espaço.

É possível que se Arafat aceitasse, Barack teria problemas em aprovar o acordo na Knesset. Poderia até ser derrubado. O ódio poderia prevalecer sobre a razão. Mas quem recuou foi Arafat, e pelo mesmo motivo. Ele já sabia que havia uma segunda intifada em fermentação e temia uma revolta das bases contra o acordo liderada pelos grupos mais radicais. Temia jogar fora seu patrimônio acumulado de herói da resistência e passar a ser estigmatizado como traidor do povo palestino – xingamento hoje proferido pelo Hammas contra o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Muhamad Abbas.

O fracasso de Camp David reforçou a estratégia israelense de procrastinação, negociações de paz que nunca levam a nada, da qual se aproveitam para expandir a presença de novas colônias na Cisjordânia. Na faixa de Gaza isso também foi tentado, mas a idéia da absorção de mais 1,5 milhões de árabes para expandir o território em escala ínfima fez com que o governo decidisse pelo oposto: retirada os colonos judeus, e o fez à força.

Na Cisjordânia, o quadro é desolador. Foi onde estive com a ONG israelense de defesa dos direitos humanos, chamada Machsom Watch, criada em 2001 exclusivamente por mulheres para denunciar a violação de direitos humanos nos checking- points. Além do estabelecimento de colônias judaicas de modo ilegal, há fronteiras e postos militares de controle entre três tipos de administração provisória, retalhando o território palestino. Há regiões administradas pela Autoridade Nacional Palestina, há outras controladas por Israel e os de administração compartilhada.

"Desse jeito não há como ter um Estado palestino, são bolsões como os que havia na África do Sul", diz indignada minha guia, a israelense Racheli Bar Or, uma psicoterapeuta de Tel Aviv, militante do Machsom Watch. Em algumas estradas, como a rodovia número 5 que tomamos e vai até o grande assentamento judaico Ariel, só podem circular veículos de chapa israelense; em outras podem circular também carros oficiais da Autoridade Palestina, mas os particulares não. Há ainda restrições de horários e outras, que mudam constantemente.

Meu amigo Dov, um paulista que hoje também mora perto de Tel Aviv e quis nos acompanhar, servindo de fotógrafo, diz que as estradas exclusivas surgiram porque carros israelenses vinham sendo apedrejados, especialmente à noite.

No checking point Huwwara, que ficamos observando boa parte do dia, o maior abuso testemunhado foi a detenção por quase duas horas de um veterinário que inadvertidamente havia tomado uma estrada num horário em que não podia. Nesses casos, os soldados telefonam para uma central de comando, pedindo instruções.

"Esse controles foram instalados para impedir a entrada de homens-bomba e explosivos", explica Dov, apontando para uma instalação especial ao lado, na qual todos os pacotes e bolsas maiores dos árabes passam pelo raio xis. Mas Racheli diz que isso hoje é só pretexto. "A maioria dos controles ficam entre aldeias e cidades árabes e não entre o território palestino e o de Israel".

Hoje, o que era para ser temporário, parece definitivo. Instalações foram melhoradas, até para humanizar o controle. Em alguns checking points há banheiros. O que se vê é um sistema amplo, permanente e complexo de ocupação que vive por si mesmo. "Já fazem 41 anos", diz a minha guia Racheli, lembrando que a ocupação da Cisjordânia se deu na guerra de 1967. Muitos daqueles jovens estudantes árabes e até os mais adultos nunca viram outro cenário senão o da ocupação. Eu pergunto a Racheli se não existe um projeto não escrito de ocupação definitiva. Uma espécie de "secret agenda." Ela diz que sim , que é isso mesmo. "Falam uma coisa e fazem outra".

Nesse posto de controle, quase uma centena de lotações estacionam de cada lado, para trazer e levar de volta as pessoas às suas vilas e aldeias, ou levar a Nablus e trazer de volta. Às vezes aparece um ônibus inteiro. A maioria são jovens, que vão a Nablus estudar, mas há gente de todo tipo, senhoras carregando grandes sacolas, mães que levaram seus filhos a hospitais. Nablus tem 160 mil habitantes e 18 mil estudantes, grande parte deles, de cidades menores e vilas próximas.

Não vimos nada de dramático naquele dia em Huwwara. Mas num outro checking-point que visitamos no começo da noite, houve alguns incidentes entre soldados e habitantes todos muito nervosos. Racheli anotava furiosamente, para fazer o relatório do dia. Soldados se aproximaram e nos fotografaram. Lembrei-me na hora das nossas passeatas fotografadas pela repressão nos tempos da ditadura militar.

Em muitos checking-points foi criada uma passagem especial – depois das reclamações da Machsom Watch - , chamada "humanitária", por onde atravessam mulheres e idosos sem muita apurrinhação. Mas nada disso consegue anular a humilhação de ter que passar por um controle policial-militar, mostrar documentos e abrir bolsas todos os dias em suas próprias terras centenárias. Essa humilhação só pode alimentar ainda mais o ódio. Entre os soldadinhos israelenses – e são soldadinhos mesmos, jovens de não mais que 18 ou 19 anos – a desmoralização, por se verem convertidos em agentes da repressão e da ocupação.

O que mais me impressionou nessa vigília nos postos de controle, foi a soberba das jovens árabes. Lindas, fazendo questão de se vestir com elegância, com o corpo todo coberto exceto o rosto, realçado pelos belos lenços de seda, elas passam pelos controles silenciosas mas com seus olhos negros erguidos, como quem diz, "nós somos bonitas e educadas e vocês o que são?"

No caminho de volta, já noite escura, meu amigo Dov resumiu suas impressões. Disse que é tudo muito desagradável mas não acredita que exista um projeto não escrito de ocupação definitiva.

"No começo havia absurdos, uma mulher grávida que precisou mostrar a barriga, um cara que levava um violino teve que tocar uma música. O Machsom Watch fotografou tudo isso". E ai ele disse uma coisa que enfureceu a Racheli: "Vocês humanizaram a ocupação".

"Nossa função não é humanizar a ocupação, é acabar com a ocupação". Ela berrava. Exalava revolta e desgosto profundo, como se fosse nojo, pela política em relação aos árabes. Certamente Racheli estava no comício em Tel Aviv em que uma minoria não silenciosa protestou contra o ataque a Gaza e exigiu o fim imediato da guerra.


Notas:

(1) Referência às duas revoltas de jovens e adolescentes palestinos contra tropas de ocupação de Israel, a primeira em 1987 e a segunda em 2000.

(2) Cia. das Letras, 2005.

(3) Acordo com sheik de Meca, Hasain Ibn Ali, foi feito em 1915. A promessa foi reiterado após a derrota da Turquia, nas conversações de paz de 1921 ao seu filho Feisal, já então rei do Iraque. Nenhum deles sabia que os ingleses e franceses tinham assinado um acordo secreto (acordo Sykes-Picot de 1915-16), dividindo a região entre si em duas áreas de influência.

(4) O registro taquigráfico do encontro entre Haj Amin e Hitler em Berlim, em novembro de 1941, está no livro The Arab- Israel Reader, (Laqueur, W. e Rubin, B. editores), Londres, Penguin, Books, 1995 ( 5ª edição), pg. 68.

(5) Peel Comission. Desse relatório nasceu o famoso Livro Branco do governo Britânico de 1939, contra a idéia da divisão da Palestina em um estado judeu e outro árabe. O Livro Branco que enfureceu os judeus, limitava a imigração de judeus a 15 mil por ano, cessando-a por completo depois de cinco anos, exceto se os árabes aceitassem. A região deveria se tornar um Estado árabe. Ficava também proibida a compra de terras por judeus.Todos os judeus que haviam imigrado desde 1918, teriam seus vistos revistos.

(6) White Paper, de 17 de maio de 1939.

(7) Décadas depois ele se tornou primeiro ministro e assinou o primeiro acordo de paz, com o Egito.