do Clic RBS - 06/12/2006 - 8h44
Aeronáutica revela erro de controladores de vôo e interferência na comunicação causada por um terceiro avião
A Aeronáutica concluiu um relatório apontando a principal causa da segunda maior tragédia da história da aviação civil brasileira, que deixou 154 mortos em 29 de setembro de 2006. Como mostra reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, a análise que será divulgada na próxima semana revela que o transponder do jato Legacy — equipamento que poderia ter evitado o acidente com o Boeing da Gol, pois alerta para possibilidade de colisão — foi equivocadamente desligado por um dos pilotos sete minutos depois de o jato passar por Brasília.
O equipamento só voltou a ser acionado três minutos após a colisão, quando os americanos perceberam que estava em modo "stand by". No total, o transponder permaneceu inoperante, sem emitir sinais para o radar de Brasília, por 58 minutos. Este é principal aspecto da cadeia de erros dos pilotos do Legacy e dos controladores de vôo apresentada em uma detalhada e precisa animação em computador, com mais de duas horas de animação, a partir dos dados recolhidos pelas caixas-pretas das aeronaves. De acordo com a Aeronáutica, os problemas começam nos controladores de São José dos Campos, de onde o avião decolou.
O operador que monitorou o Legacy não foi claro ao dar a instrução aos pilotos, dizendo que eles deveriam voar a 37 mil pés no trecho São José dos Campos-Eduardo Gomes (Aeroporto de Manaus). Na verdade, deveriam seguir nessa altitude até Brasília, quando mudariam de nível, fazendo nova mudança ao sobrevoar Mato Grosso. Outros erros de controladores ocorreram quando o Legacy passou por Brasília. O militar de plantão não percebeu que o jato não seguia o plano de vôo e não mudou de altitude. Também não notou quando o transponder foi desligado.
Houve novo erro quando, na troca de turno, o novo operador foi informado, equivocadamente, de que o Legacy estava voando a 36 mil pés, embora estivesse a 37 mil, na rota de colisão com o Gol. O operador também não viu — ou não checou com os pilotos — por que o transponder estava desligado. O Legacy e o controle de tráfego ficaram quase 50 minutos sem se comunicar. Depois, quando o monitoramento do Legacy foi passado para o controle de Manaus, mais uma vez foi transmitida a informação de altitude errada.
A Aeronáutica revela que os pilotos não conheciam direito nem o aparelho que estavam pilotando nem as normas de vôo do Brasil, que seguem o padrão da Organização Internacional de Aviação Civil (Icao, na sigla em inglês). Os pilotos americanos seguiram procedimentos da Agência Federal de Aviação (FAA), vigente nos Estados Unidos, que determinam a manutenção do plano de vôo até ordem contrária da torre.
Interferência de terceiro avião
Não bastasse a sucessão de erros de pilotos e controladores, raras coincidências e fatos inesperados contribuíram para o segundo maior acidente da história da aviação civil brasileira, que deixou 154 mortos em setembro de 2006. É o que revela um novo relatório sobre a tragédia do Boeing da Gol, a ser apresentado na próxima semana pela Aeronáutica.
Após desesperadas tentativas de falar com os controladores de Brasília, a última comunicação que os pilotos do Legacy tentaram com o Cindacta-1 não foi ouvida pelos militares, pois outra aeronave que passava pela região acionou o botão de chamada no mesmo momento. Quando dois rádios acionam este chamado ao mesmo tempo, conforme o relatório, nenhum dos dois transmite comunicação, e o receptor também não ouve ninguém.
Depois do ocorrido, o Legacy não conseguiu mais contatar Brasília porque a freqüência de rádio utilizada não alcançava mais o Cindacta-1. Na chamada anterior, o piloto do Legacy solicitara aos controladores que repetissem as freqüências que ele deveria passar a usar. O piloto só conseguiu ouvir os três primeiros dígitos da seqüência numérica 123,32 MHz, sem entender os décimos e centésimos. Quando o Legacy pediu para que a freqüência fosse repetida, o Cindacta-1 não conseguia mais ouvi-lo.
A Força Aérea Brasileira não busca culpados, e sim fatores que contribuíram para que o acidente ocorresse. O objetivo é emitir recomendações para evitar que outras tragédias aconteçam devido aos mesmos erros. Por conta do choque do Gol com o Legacy, 65 novas orientações estão sendo encaminhadas a diferentes órgãos ligados à aviação civil, no Brasil e no Exterior, para melhorar as condições de segurança dos vôos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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