O ambiente sombrio provocado pela crise do sistema financeiro norte-americano foi interrompido por uma onda de valorizações na segunda-feira, 13 de outubro. A Bolsa de Nova York teve uma alta de mais de 11%, a maior desde 1933. O motivo de tal euforia foi o anúncio, pelos 15 países da Zona do Euro, de que injetariam recursos em troca de ações para capitalizar seus bancos em dificuldades, medida antecipada pela Inglaterra e, depois, seguida pelos Estados Unidos.
O paralelo com 1933 não é casual. Naquele momento, depois de mais de três anos de depressão, o presidente Roosevelt encerrou um período de liberalismo e iniciou um programa de intervenção do Estado na economia, o New Deal, responsável pela recuperação que abriu portas à vitória na II Guerra e ao longo ciclo de prosperidade que se seguiu até a década de 70.
As lições de então e de hoje, tão bem apreendidas por Keynes e, em alguma medida, antecipadas por Marx, mostram a instabilidade inerente ao capitalismo. Os preços indicam a empresários e a trabalhadores onde empregar seus meios de produção e sua força de trabalho, num processo interativo de tentativa e erro em que se alternam expansão e inflação com desemprego e ociosidade do capital. Se o mercado de bens e serviços tende à superprodução, causa dos ciclos de crescimento e recessão, nos mercados financeiros, o movimento é exacerbado ao extremo.
A falsa promessa do liberalismo está embasada na também falsa teoria dos mercados eficientes. Como mostraram Aglitta e Orléan, o agente, no mercado financeiro, não é racional, age por mimetismo. Quando todos compram, compra, se não, deixa de ganhar, e quando todos vendem, vende, se não, vai perder. Dessa forma, não só os movimentos para cima a para baixo serão sempre exagerados, como esse exagero especulativo leva a euforias em que se compra qualquer coisa, porque sempre há quem queira recomprá-la depois. É por isso que os subprimes não são uma anomalia, mas um resultado necessário do modo como esses mercados funcionam. E também é por isso que eles precisam ser contidos em sua irracionalidade por uma forte regulação estatal internacionalmente coordenada. Na crise, mergulhado em desconfiança, o setor privado volta-se para o Estado, único ente capaz de restaurar a credibilidade do sistema. E Hank Paulson passou a promotor da estatização.
Nos primórdios do que veio a ser a avassaladora dominação do neoliberalismo mundo afora, Margareth Thatcher lançou a consigna “não há alternativa”. O caminho único, desde então, foi liberalização, desregulamentação e recuo do Estado, apresentado por Ronald Reagan, outro pioneiro, como o problema e não a solução. A ironia desse momento em que a história se repete com as cores de tragédia dessa tão grande crise é que a única alternativa passou a ser a ação firme do Estado, que voltou a ser a solução.
16 outubro 2008
Quando o mercado falha, Estado!, por Luiz Augusto E. Faria*
Zero Hora, 16 de outubro de 2008.
*Economista da FEE e professor da UFRGS
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